Monitorização de Mega Riscos

 

O QUE É?

A Monitorização de Mega Riscos é um projecto de investigação integrado no Think Tank da ARS. É focado na identificação e análise de tendências globais de risco, prioritárias e no respectivo potencial de impacto negativo ao nível regional. A análise é conduzida por um coordenador de projecto da ARS em estrita colaboração com especialistas das várias áreas em questão. Abaixo apresentamos um resumo dos principais resultados de cada uma das categorias.

Conclusão genérica:

“Conforme o crescimento populacional acelera e os recursos naturais se degradam a um ritmo cada vez mais acelerado, o ecossistema terrestre do qual o ser humano é a parte principal, entra num estado progressivo de stress acompanhado do potencial de conflito que esse estado gera.”

Veja aqui os dados mais actualizados:

Monitorização mega-riscos 2018

QUAIS SÃO OS MEGA-RISCOS?

1. CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO ACELERADO

Nos últimos 60 anos, a população mundial aumentou 180% (de 2.5 mil milhões para 7 mil milhões) (ONU, 2013).
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Projeções de crescimento populacional global (ONU, 2013)

A hipótese do crescimento populacional se poder tornar um factor de crise planetária é uma ideia actualmente debatida pela comunidade internacional (AEA, 2011). A falta de consciencialização e planeamento para a acomodação deste fenómeno deixa espaço para a emergência de conflitos em múltiplas escalas. É, pois, essencial reflectir sobre a questão de forma ética e sensível, procurando salvaguardar simultâneamente os direitos humanos e a qualidade de vida das comunidades.

 

2. DEGRADAÇÃO ACELERADA DE RECURSOS

É de facto provável que nos próximos anos venhamos a assistir a um aumento extremo do nível do mar caracterizado por resultados imprevisíveis, severos ou até catastróficos (IPCC, 2013).
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Monitorização de extensão de gelo polar – min. de verão 2015 face à média entre 1980-2000 (NOOA, 2014)

Actualmente o oceano glaciar Árctico está a degradar-se a um ritmo de 13% ao ano* (NOAA, 2014), não sendo este nem o único nem o pior dos indicadores de degradação ambiental à escala planetária. Quando os limites críticos de um sistema ecológico são ultrapassados, este deixa de ser resiliente e colapsa para um estado qualitativo diferente. Para além das implicações ambientais, este fenómeno é mais um multiplicador do potencial de conflito e de graves consequências económicas.

Ao nível local podem ser implementadas mais acções de protecção do ambiente e deve ser acelerada a execução das acções já existentes. Acreditamos que tais acções não só permitirão identificar factores críticos para o sucesso do desenvolvimento da região de Lisboa como trarão melhorias nos cenários de segurança globais, sobretudo se puderem ser replicadas noutras regiões.

3. COMPLEXIDADE DA INDÚSTRIA FINANCEIRA

A inovação tecnológica, desregulamentação e a transformação institucional no sector financeiro resultaram no posicionamento mais eficiente, profundo e complexo da banca de investimento e suas derivações no tecido económico global (Rajan, 2005). Deste fenómeno resultou numa omissão de risco de escala global e sem precedentes, com impactos devastadores na economia real.

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Só nos Estados Unidos, entre 2008 e 2011, este fenómeno causou 26 milhões de desempregados, a perda de casa a 4 milhões de pessoas e o desaparecimento de 11 triliões de dólares em poupanças e reformas (US-FCIC, 2011). A crise económico-financeira constituiu a maior recessão global desde a Grande Depressão e contribuiu de forma fundamental para a crise das dívidas soberanas que os cidadão europeus ainda estão a pagar (CEU, 2013).

Um factor determinante deste processo catastrófico nos Estados Unidos foi a capacidade de lobbying da indústria financeira sobre os legisladores do governo (US-FCIC, 2011).

A chave para que estes fenómenos não se repitam e se tornem calamidades públicas das quais é extremamente difícil recuperar, está na capacidade dos cidadãos e governos entenderem a natureza das corporações financeiras transnacionais e a sua influência na sociedade afim de a poderem gerir.

 

4. RISCOS CIBERNÉTICOS

Através da conectividade global das pessoas, da omnipresença de tecnologias de informação no quotidiano e subsequente produção de informações residuais sobre as mesmas (meta-dados) existem mais mecanismos e capacidade para entender e prever os comportamentos e objectivos dos indivíduos, comunidades ou nações.

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A recolha e análise massiva de meta-dados sociais em muitos casos constitui uma “intromissão arbitrária na vida privada dos indivíduos e das comunidades” (PEU, 2013), o que viola o artigo 12º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948).

Ainda que tenha sido aprovada legislação recentemente ao nivel europeu, ela está ainda ausente em muitos países o que viabiliza que nações ou organizações: i) tirem vantagens ilícitas do ponto de vista político, económico, tecnológico e social, ii) que desequilibrem perniciosamente o campo de jogo entre o indivíduo e as organizações e, no limite, iii) desenvolvam formas de engenharia social de massas.

Este fenómeno pode comprometer as liberdades fundamentais de indivíduos, de comunidades e inclusivamente de nações sendo, por conseguinte, urgente debater estas questões na sociedade civil, nomeadamente, com vista à produzir acções locais que consciencializem a comunidade da região de Lisboa para possíveis violações dos seus direitos humanos e a capitalização económica e política das mesmas.

 

5. QUALIDADE DA DEMOCRACIA

Se não cuiddarmos da democracia, teremos que cuidar da falta dela

Desde a crise económico-financeira a qualidade da democracia regrediu em muitos estados, nomeadamente nos Estados Unidos e na Europa. Não só devido ao crescimento e eleição de candidatos e partidos populistas e ideologicamente extremistas, bem como devido a questões relacionadas com a corrupção e as ligações entre o sistema legislativo e os grandes grupos económicos. A ARS considera que é necessário esclarecer a sociedade civil para que possamos todos ser agentes nesta mudança monitorizando  e exigindo uma democracia mais transparente nas nossas sociedades. chris-slupski-433343-unsplash

 

Referências:

Agência Europeia do Ambiente (Setembro de 2011) Economic Growth rather than population will be the core driver of consumption. http://www.eea.europa.eu/signals/signals-2011/earth-2050-global-megatrends/economic-growth-rather-than-population acedido Setembro de 2011

Comissão Europeia (2013) Proposta para directiva do conselho implementar aumento de cooperação na área da taxação de transacções financeiras 2013/0045 (CNS) , pp 2-4 , http://ec.europa.eu/taxation_customs/resources/documents/taxation/com_2013_71_en.pdf acedido a 10 de Abril 2015

EUA – Comissão de Inquérito à Crise Financeira (2011) Final report of the national commission on the causes of the financial and economic crisis in the United States USA-FCIC Washinton, January 2011. http://www.gpo.gov/fdsys/pkg/GPO-FCIC/content-detail.html

Organização das Nações Unidas (1948) Declaração Universal dos Direitos do Homem, Art. 12º Organização das Nações Unidas 10 de Dezembro de 1948. http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf

Organização das Nações Unidas (2013) World population prospects 2012 revision Nações Unidas / Divisão da População / Departamento de Assuntos Económicos e Sociais, Junho de 2013. http://www.un.org/en/development/desa/population/theme/trends/index.shtml

Parlamento Europeu (Junho de 2013) Proposta de Resolução 2013/2682(RSP) sobre o programa de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos. http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?type=MOTION&reference=B7-2013-0341&format=XML&language=PT acedido 10 de Abril 2014

Perovich, D et. al. 2014: Sea Ice [in Arctic Report Card 2014]. http://www.arctic.noaa.gov/reportcard acedido a 2 de Abril de 2014

Rajan, R. (2005) Has financial development made the world riskier ? Federal Reserve Bank of Kansas City (Jackson hole symposium) 2005. http://www.kansascityfed.org/publicat/sympos/2005/pdf/Rajan2005.pdf acedido 2 de April 2015

Stocker, T. et. al. (2013) Climate change 2013 the physical sciences basis – Summary for Policy Makers , pp 5, Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), Suíça Outubro de 2013http://www.ipcc.ch/report/ar5/wg1/